Acordar às 6h, sair para o trabalho às 7h e voltar para casa às 20h. Assim se parecem quase todos os dias de Luccardina del Valle Gonzalez Rondon, de 55 anos, que trabalha como faxineira de segunda a sexta-feira na academia de artes marciais Gracie Barra, em Florianópolis (SC), e nos fins de semana limpa escritórios de advocacia.  “Eu não paro. Aqui não pode estar parada para sobreviver”. Com essa rotina, além de conseguir pagar o aluguel do apartamento onde vive com o marido Frank Soto, de 57 anos, e outras despesas básicas, também envia dinheiro para familiares que vivem na Venezuela. 

Parte do salário que vai para o seu país de origem serve para ajudar no tratamento contra o câncer do primo Manuel Francisco de la Puente, de 47 anos. “Meu primo-irmão, na verdade”, explica Luccardina com afeto. Ele é filho de sua tia Lucia Martinez Salas, de 75 anos, que considera uma segunda mãe. Ambas conversam com frequência por mensagens e ligações de vídeo. 

O ritmo de trabalho da faxineira é similar ao que tinha quando morava na cidade de Maturín, na região norte da Venezuela. Antes de se mudar para o Brasil, sua jornada laboral também era de segunda a segunda: trabalhava como ajudante de cozinha em uma empresa e ainda fazia faxinas em casas de família. “Não havia um dia que eu descansava”.

Mesmo com todos os serviços que realizava, em janeiro de 2018, quando percebeu que o contexto socioeconômico do país não era mais sustentável e que migraria, suas economias se converteram em apenas R$ 5. 

Deixou o país dizendo aos dois filhos, que na época tinham 17 e 21 anos, que ficaria fora por três meses. Cerca de dois anos depois, a família decidiu se juntar a ela e nunca mais retornaram.

Ao chegar em Pacaraima (RR), cidade brasileira na fronteira com a Venezuela, com a venda de cinco pacotes de cigarros que trazia em sua bagagem e o desejo de mudar de vida, Luccardina transformou os R$ 5 em R$ 25 — valor suficiente para comprar a passagem de ônibus até Boa Vista, capital de Roraima.

Nesse processo de migração, não esteve completamente sozinha. Ela e outra venezuelana, conhecida de uma tia, fizeram companhia e deram suporte uma para a outra no primeiro ano no Brasil.

Em Boa Vista, a venezuelana recebeu apoio do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR), organização ligada à Igreja Católica, que ajuda no processo de emissão de documentos, obtenção de carteira de trabalho e elaboração do currículo. “Eu fui um dia lá, fiz o currículo, fiz tudo. Em sete meses, me ligaram dizendo que havia uma vaga de emprego de faxina em São Paulo para um empresário”. Em setembro daquele mesmo ano, mudou-se para a capital paulista, onde ficou cerca de um ano e meio.

Os dois filhos de Luccardina chegaram ao Brasil em novembro de 2019. A mudança para Florianópolis (SC) se deu depois que a filha mais velha, Genessis Soto Gonzalez, de 29 anos, conseguiu uma vaga de emprego na Ilha da Magia. Marido, irmã, pai, sobrinho. Com o tempo, outros membros da família deixaram a Venezuela para se juntar a eles. “Minha mãe não deu tempo de trazer. Está morta faz 13 anos. Se não ela teria sido a primeira que eu teria trazido”, afirma com a voz embargada.

Em relação àqueles que permanecem na Venezuela, Luccardina fala em “saudade”, palavra que aprendeu no português. Com a captura de Maduro, há esperança de um reencontro.

"Mas, graças a Deus, vai melhorar”, diz tocando com uma das mãos o rosário em volta do pescoço que comprou na Igreja da Santíssima Trindade. “Creio muito em Deus, mas não sou de uma religião exatamente”. Luccardina mantém a fé de que “o resto do regime cairá por completo”. “O controle é de Deus. E Ele sabe quando vai cair”.

Reportagem produzida como Trabalho de Conclusão do Curso de Jornalismo no semestre 2026.1

Reportagem: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Edição de vídeos e áudios: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Identidade visual e webdesign: Clara Spessatto e Júlia Santos da Rosa Matos
Orientação: Melina de la Barrera Ayres

Florianópolis, 30 de junho de 2026

Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Curso de Jornalismo